É sabido por todos que a utilização dos serviços médicos hospitalares é diretamente proporcionar à faixa etária, ou seja, os mais jovens possuem uma tendência de utilizar menos e os com idade mais avançadas possuem tendência de utilizar mais. Essa conta é compensada pelo fenômeno chamado mutualismo, por algumas vezes abordados em outros textos.

Tudo bem até aí, mas você possui uma ideia de como é esse comportamento por idade? Já viu algum gráfico do custo per capita da saúde suplementar por idade e gênero? Está informação está por trás do agrupamento por faixa etária que possui a sua razão de existir para que alguma distorção numérica seja diluída na coletividade maior. Além do fato do Estatuto do Idoso, pacto intergeracional, dentre outras razões.

Conforme o parágrafo acima, vejamos o gráfico a seguir e elencando na sequencia algumas observações importantes para nossa análise.

A fonte de dados deste gráfico é do Anuário de Custos de Planos de Saúde (ACPS), elaborado pela Strategy Consultoria através da carteira de seus clientes envolvendo mais de 100 operadoras, devidamente autorizado para esta publicação. Podemos ter vieses, se compararmos esta informação com outras carteiras, mas na média geral, o comportamento não deve destoar tanto.

Portanto, notem que:

  • As idades iniciais, até os 2 anos, em ambos os gêneros, possuem custo per capita representativo, mas é diluído quando se calcula a faixa 00-18. 
  • A partir da idade 18 até a idade 40 percebe-se que o custo per capita das mulheres é bem superior ao do homem, devido ser idades férteis. Essa superioridade se estende até a idade 64, porém numa proporção menor. Além da questão do parto, a mulher se cuida mais, recorre mais aos serviços médicos em função de vários fatores de prevenção e cuidados no geral. 
  • A partir da idade 67, o custo per capita dos homens passa a ser superior até o final (idade 100). Nos levando a interpretar que, na prática, o homem só começa a se cuidar mais, recorrendo mais aos serviços quando passa dos 60 anos. 

Esse comportamento é “escondido” quando se agrupa por faixa etária, o nível de detalhamento é, digamos, perdido. Lembrando que as faixas etárias da saúde suplementar são:

  • 00-18
  • 19-23
  • 24-28
  • 29-33
  • 34-38
  • 39-43
  • 44-48
  • 49-53
  • 54-58
  • 59 ou +

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O mesmo acontece com os itens de custo assistencial definido pela ANS para a Nota Técnica de Registro de Produto (NTRP), quais sejam:  

  • Consultas Médicas
  • Exames Complementares
  • Terapias
  • Outros Atendimentos Ambulatoriais
  • Internações
  • Demais

Se ao invés de calcularmos a frequência de utilização e severidade média para cada agrupamento acima citado nas 10 faixas (Anexo II-A e II-B), detalhássemos mais, incluindo a probabilidade, por idade e gênero, da pessoa contrair uma determinada doença que ai geraria a consequência de levá-la a uma consulta, exame etc.?

Esse trabalho nos levaria a uma construção de uma Tábua de Morbidez, a partir do perfil epidemiológico referente à experiência da própria Operadora. Muito embora a afirmativa inicial desse texto seja verdadeira (os mais jovens possuem uma tendência de utilizar menos e os com idade mais avançadas possuem tendência de utilizar mais), ela é mutável, ou seja, hoje em dia já percebemos óbitos de pessoas mais jovens fruto de doenças crônicas.

Importante ressaltar que não estamos tratando aqui dos modelos de prevenção de doenças e promoção à saúde que as Operadoras já praticam. Aqui o tratamento é apenas de um olhar mais rebuscado para enriquecer (quem sabe) alguma análise ou até mesmo arrojar mais as modelagens de precificação atualmente praticada.

A tábua de morbidez consiste em uma tabela que apresenta os índices de incidência e tempo de permanência de um indivíduo ser atingido por uma enfermidade. Servem para medir as probabilidades que os um grupo de pessoas saudáveis possam contrair determinadas doenças, em determinado espaço de tempo.

A ideia da construção de uma Tábua de Morbidez já era abordada na dissertação de mestrado METODOLOGIA PARA PRECIFICAÇÃO DE PLANOS DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE: UM ENFOQUE ESTATÍSTICO, ATUARIAL E FINANCEIRO do meu amigo LUIZ FERNANDO VENDRAMINI, isso já em 2001.

Ele destaca uma referência teórica o trabalho de Pierre Depoid, apresentado em seu livro “Applications de la Statistique aux Assurances Accidents et Dommages”(FERREIRA, 1985, v. 4, p. 332). Depoid, em seu trabalho, conduz à organização de uma Tábua de Morbidez, a qual apresenta grandes analogias às tábuas de mortalidade, bem como ao estudo atuarial da modalidade de seguro das despesas médicas, hospitalares e farmacêuticas.

Esse estudo atuarial deu lugar a trabalhos atuariais importantes por parte do Dr. Tosberg, diretor da ‘Deutsche Krauken Versicherung AKT.Ges’ e sobre o qual se desenvolveu a teoria da análise do risco (Manual de seguro saúde, 2001, p. 287).

Ademais uma tábua de morbidez subentende que estaríamos prevendo a entrada de um grupo ao decremento (enfermidade) que geraria a utilização de serviços e consequentemente ocasionaria o custo assistencial associado. Obviamente com uma margem de erro incluída e a necessidade de dinamização. Contudo, hoje em dia utilizamos as frequências e severidades fruto de decrementos já corridos e sumarizados, ou seja, analisamos somente a ponta final do processo, inferindo o futuro com a "certeza" de replicações do passado.   

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Para finalizar, aqui destaquei apenas dois exemplos (faixa etária e itens de custos), mas existem vários outros e por mais que os agrupamentos otimizem o nosso tempo, simplificando modelos e fornecendo agilidade, estejamos atentos à riqueza informacional que pode existir por trás deles. Esta riqueza pode fazer uma diferença grande na hora da tomada de decisão que necessite de uma precisão maior, principalmente em se tratando de mercado com nível de risco elevado como é o da saúde suplementar.

Já tinha pensado nisso?

Aproveite e leia o paper da autora Maria Lúcia Lebrão, Professora Associada do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Vamos em frente...