Por Marc Tawil

Ficar desempregado é uma experiência devastadora. Um monstro de várias faces que, primeiro, e evidentemente, arrasa aquele que recebeu a má notícia que, em breve, ou muito breve, engordará uma estatística cruel. O desemprego implode a harmonia do lar, sobrecarrega a preocupação com os filhos, mina a autoestima e, no médio prazo, pode ser um gatilho para inúmeras fobias e doenças ­– entre elas, a depressão.

Quem já passou ou passa hoje pela experiência da desocupação forçada sabe que um dos questionamentos mais comuns nesta fase é: “Onde estão os amigos numa hora dessas?”

Embora só haja duas respostas para essa pergunta – “trabalhando” ou “procurando emprego” –, o sentimento em relação aos “ocupados”, na maioria dos casos, é um misto de ingratidão e abandono.

Quem está do outro lado não pede nada mais do que alguns gestos simples, como responder a um e-mail, retornar uma ligação, saber ouvir e dar um conselho. Isso, por si só, faria um bem danado.

Só que, no Brasil de 2016, apenas ser um bom ouvinte não basta. E quem está empregado deve saber – ou ser gentilmente informado – de que desempenha um papel preponderante na vida de quem não está.

Se a vontade é ver o País sair da crise, empregados e desempregados precisam se dar as mãos. Se ajudar.

Como?

Reuni 8 sugestões para quem ainda não encontrou uma forma de lidar com o drama alheio ou simplesmente se cansou da mesma fórmula. Algumas dessas sugestões eu aplico ou apliquei; outras, eu li e achei interessantes. 

1. Saiba ouvir, saiba receber

Entenda-se por ouvir “prestar atenção, interpretar e fazer uma devolutiva sincera”. Quem está num momento sensível dobra ou triplica suas chances de se magoar com uma recepção morna ou indiferente de um amigo ou conhecido, afinal, aquele bate-papo presencial pode ser o único naquela semana.

2. Ofereça a sua rede de contatos

Buscar recolocação profissional sem uma rede de contatos consistente é impossível. Gestores de pequenas e médias empresas contratam por confiança, quase nunca por competência (essa sim, determinante para o colaborador permanecer na empresa). Sabendo disso, deixe seu amigo escolher e faça a introdução. Atenção: se não tiver a ver, demova-o da ideia e diga o porquê.

3. Incentive-o a não perder o foco

Para quem está sem emprego, encontrar recolocação deve ser a missão principal. O tempo ocioso, contudo, pode fazer mais mal do que bem. Incentive seu amigo a usar as horas livres para também pensar em aprimoramento pessoal e profissional. Indique cursos gratuitos, leituras, livros e aplicativos. 

4. Treine-o para uma entrevista de emprego

Entrevistas de emprego são dramáticas por natureza. Agora imagine em pleno momento de escassez de vagas. Pois é. Aqui, o melhor a se fazer é simular um bate-papo honesto com o seu amigo, focado nas capacidades dele. Faça pegadinhas típicas das entrevistas. Pontue sobre o jeito de falar, de vestir, em como ele deve conhecer a empresa com quem irá falar. Levará pouco tempo para você e fornecerá insights preciosos para ele.

5. Fique atento às oportunidades

Por mais incrível que possa parecer, aquele que está empregado cruza com mais oportunidades de vaga do que o contrário. O segredo, nessas horas, é pedir ao seu amigo um texto de cinco linhas sobre ele, com formação acadêmica, por onde passou, idiomas, habilidades e guarda-lo. Ao se deparar com a oportunidade, avise-o da vaga ou apresente-o a quem a colocou no mercado.

6. Seja sutil nas abordagens

É muito fácil falar quando não é debaixo da sua porta que as contas a pagar se avolumam semana a semana. Ao orientar, sugerir ou criticar, escolha uma comunicação positiva ou não-agressiva. Uma palavra mal empregada pode chatear e até traumatizar seu interlocutor. Tente se colocar no lugar de quem aceitou ser auxiliado. Não resolve o problema, mas ajuda.

7. Seja amigo e não só coach

Amigo de verdade desce do muro, opina, critica, lamenta e oferece o ombro, quando precisa. Quer ser um bom amigo? Chame quem está sem ocupação para curtir um pouco a vida, jantar na sua casa, fazer um esporte, assistir a uma peça ou jogar conversa fora no bar. Dar uma pausa em uma busca tão estressante faz bem, oxigena a mente e gera insights positivos.

8. Nunca, jamais, em hipótese alguma, finja estar ajudando

Comete um crime quem ilude um amigo ou conhecido em uma situação limite como o desemprego. Como escrevi acima, a pessoa deposita suas esperanças em um bate-papo sincero, mas os dias se passam e a ajuda prometida nunca chega. Se não pode ou não quer ajudar, aja com honestidade e respeito. 

E lembre-se:

Para tornar-se desempregado, basta ter um emprego. Portanto, colocar-se no lugar de um amigo ou conhecido é humano, é vital. Morre a cada dia quem está empregado e não mantém uma boa rede de contatos, não atualiza seus perfis em redes sociais, ignora fornecedores e parceiros e não dá suporte aos colegas.

Quando se está perdendo, e na crise todos perdemos, ninguém é insubstituível. 

** As oito dicas acima são sugestões. Se você tem complementos ou orientações tão ou mais assertivas, não deixe postar aqui nos comentários. Certamente elas irão ajudar muita gente. Obrigado e boa sorte!

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Marc Tawil

Jornalista, radialista e escritor. Pertenceu às redações do jornal Resenha Judaica, Rádio Jovem Pan AM, Jornal da Tarde (Grupo Estado) e Rádio BandNews FM. Publicou os livros Trânsito Assassino (Ed. Terceiro Nome), Haja Saco, o Livro (Ed. Multifoco) e editou a biografia do advogado Abrão Lowenthal (Ed. Quest). Tem MBA em Gestão Empresarial pela FGV e cursa MBA de Marketing pela USP. Dirige a Tawil Comunicação.